terça-feira, 10 de Novembro de 2009

365 dias de cidadania

Faz hoje precisamente 1 ano que foi criado este blog, com um post sobre o estado de abandono da muralha de Porto Pim e a rua onde a mesma se encontra. Mal sabia que o resultado seria a intervenção que todos conhecemos e da qual não vale a pena falar mais.
Geralmente é nestas ocasiões que se apresentam alguns dados a fim de fazer um balanço das actividades. Ora o HORTA XXI não gostaria de ser excepção e aproveitamos a deixa para fazer um pequeno ponto de situação.
No período de 1 ano foram apresentadas diversas propostas concretas para a resolução de problemas, tais como o reordenamento do trânsito da cidade da Horta e a requalificação da Travessa do Porto Pim. Foi igualmente dado um passo importante na participação pública, através da iniciativa de uma petição solicitando um repensar nas formas de circulação da cidade, que reuniu 100 subscritores. Foram discutidas várias questões ligadas ao urbanismo e património, tais como aproveitamento de espaços públicos inutilizados, cores dos edifícios da cidade da Horta, etc, tendo surgido algumas ideias bastante interessantes para tornar esta cidade ainda mais apetecível. O HORTA XXI foi igualmente co-responsável pela organização das Jornadas Europeias do Património, cujas iniciativas permitiram dar a conhecer o valor patrimonial da baía de Porto Pim, bem como momentos inesquecíveis durante uma noite de luar no Forte de São Sebastião. Finalmente forma criadas condições para a formação de uma associação de salvaguarda do património faialense.
Com um balanço destes, existem razões para estarmos satisfeitos com a existência deste blog e sentirmos vontade de continuar a melhorar.
Infelizmente, como deverão ter reparado, a participação neste espaço de discussão pública tem sido incrivelmente reduzida. Ultimamente tenho sido o único dinamizador deste blog, lançando temas para discussão. Deverão igualmente ter reparado que os comentários têm sido escassos ou mesmo nulos.
Apesar deste blog ter sido criado por 1 elemento, foram convidados diversos cidadãos para contribuirem para este blog. O propósito era criar um espaço de discussão, com diversos pontos de vista, gerando debate e troca de ideias. Quando um blog tem apenas um dinamizador torna-se um blog de autor. O HORTA XXI não é, nem pretende ser, um blog de autor.
Quando um blog de discussão pública não gera discussão, deixa de ser um espaço de debate e passa a ser um espaço de deambulações do(s) seu(s) autor(es). Ao colocar posts que não são alvo de comentários, podemos assumir que os mesmos são verdade irrefutáveis e, como tal, não discutíveis, ou então que os mesmos merecem a mesma atenção que os brados de um pobre louco que grita contra o mundo, que todos, com uma ponta de comiseração, fazemos o possível por ignorar.
Quem me conhece sabe que, apesar da convicção com que defendo os meus pontos de vista, não acho que os mesmos sejam inquestionáveis e muito menos indiscutíveis, pelo que actualmente que a minha participação exclusiva neste blog me deixa muito próximo da situação da célebre personagem do vídeo ao lado.
Como deverão ter percebido, este longo post tem como objectivo apelar a uma maior participação de todos os que acompanham este espaço, e em particular aos restantes contribuidores, de forma a que o mesmo se torne novamente um espaço de discussão pública.
Caso se verifique que o blog deixou de fazer sentido, naturalmente que o mesmo terminará. Se fôr esse o caso gostaria de, antecipadamente, agradecer a todos os participantes e contribuidores que ao longo de quase 1 ano participaram neste espaço que, como é óbvio, teve consequências tão positivas.
Para terminar, gostaria apenas de relembrar que só é possível ter uma sociedade mais justa e saudável se existir um verdadeiro sentido de cidadania, o qual implica o envolvimento da sociedade civil, que somos todos nós.
Até breve...

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

reabilitação de edificações existentes

Foi recentemente criada pelo Governo (da República) uma lei para a área da habitação que visa promover a reabilitação urbana em detrimento das construções novas, à qual foi dado o óbvio nome de Regime Jurídico de Reabilitação Urbana.
O próprio Plano de Urbanização da Horta, que tarda em entrar em vigor, estimula a reabilitação em vez de construções novas. Espero que os arquitectos que futuramente irão actuar nas intervenções dentro da área abrangida pelo Plano de Urbanização sejam sensíveis a esta forma de intervenção e não caiam na tentação do facilitismo da erradicação dos edifícios existentes de forma a poder fazer um projecto de raíz sem constrangimentos.
Mas, e os restantes agentes estarão preparados para esta realidade?
Vejamos:
Dono de Obra: muitas vezes os edifícios existentes são anteriores à entrada em vigor do Regulamento Geral das Edificações Urbanas (RGEU), ou seja 1951, e como tal os compartimentos, organização e condições existentes nem sempre são adaptáveis às exigências contemporâneas, tais como quartos com áreas superiores a 15m2, salas com mais de 30m2, grandes vãos, etc. Naturalmente quando, por mais voltas que se dê, não é possível "meter o Rossio na Betesga", devido à existência de constrangimentos de ordem estrutural ou arquitectónica, a vontade é deitar abaixo e fazer de novo de forma a eliminar esses constrangimentos. Tal no entanto significa um ganho pessoal mas uma perda social e cultural porque se está a destruir história e, por vezes, arte.
Projectistas de estabilidade: Imaginemos que existe vontade por parte dos projectistas de arquitectura e dos donos de obra em preservar o existente prevendo-se como tal a sua reabilitação. Por vezes esta vontade esbarra contra a desconfiança do projectista de estabilidade, muitas vezes porque é mais simples calcular uma estrutura nova do que tentar conciliar uma estrutura nova com as condições estruturais existentes. Geralmente esses projectistas alegam falta de condições estruturais do existente para justificar a sua demolição. Infelizmente nem sempre é verdade que não existam condições de segurança das construções existentes. O que existe é alguma falta de ética por parte desses projectistas, que felizmente creio que são poucos.
Empreiteiros: Por vezes chega-se à fase de obra com todos os intervenientes a actuar no sentido de reabilitar e eis que entra o Empreiteiro. Devido ao "boom" da construção nova são muito poucos os empreiteiros que estão preparados para uma intervenção de reabilitação preferindo, como tal, uma intervenção do tipo construção nova. Por vezes tentam convencer o dono de obra a demolir o existente e fazer tudo de novo, geralmente com o argumento da redução de custos, algo a que todos somos sensíveis.
É por estas razões que muitas vezes são demolidas construções existentes e feitas novas construções, mesmo quando se mantém a imagem do existente. Enquanto projectista de arquitectura já me sucederam situações semelhantes, principalmente devido às questões relacionadas com projectistas de estabilidade e empreiteiros.
Resumindo, reabilitar é difícil, constringe o projectista de arquitectura, constringe as exigências do dono de obra, obriga a um maior trabalho e rigor do projectista de estabilidade e um maior cuidado e profissionalismo por parte do Empreiteiro. No entanto existem muitas outras razões para ser preferível à solução de construção nova destacando as razões patrimoniais, culturais e ambientais. Pessoalmente, enquanto projectista, tenho muito mais interesse em trabalhos de reabilitação do que de construções novas mas tenho consciencia que é umas dôr de cabeça maior mas que, quando todos os intervenientes colaboram, é altamente compensador reabilitar uma construção existente.
É extremamente importante que os diversos organismos que regulam o sector da construção, câmaras municipais, governo, ordens e associações profissionais, etc, exerçam acções de sensibilização dos agentes e população em geral para a importância da reabilitação e porque é que esta devia ser a prioridade na renovação do parque habitacional.

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

fazendo 1 ano

O jornal "FAZENDO" vai FAZER 1 ano. Parabéns aos seus criadores, colaboradores, impulsionadores e outros ores que contribuam, ou tenham contribuido para a publicação desta «agenda cultural faialense».
Entre tantas coisas que poderia dizer sobre o "FAZENDO" aquela que mais me marca é a improbabilidade da sua existência. Vejamos:
Faial, uma ilha com cerca de 15.000 habitantes, 1 Concelho, 1 empresa municipal de "organização" de eventos culturais e gestão de espaços lúdicos, 3 ourivesarias, 0 (zero) livrarias, 0 (zero) lojas de discos, diversas associações culturais e artísticas com muita vontade e muito pouco dinheiro.
Faial, uma ilha onde tantas vozes se queixam "ter sido esquecida pelo governo", de "estar parada no tempo", de "não acontecer nada", etc, etc, etc.
Faial, uma ilha onde os interesses dos partidos se misturam com o interesse público, onde os interesses pessoais se misturam com os interesses dos partidos, e por aí fora.
Neste contexto, na realidade tão igual ao de tantas outras cidades portuguesas, as probabilidades de surgir um boletim cultural com crónicas, críticas e artigos de tão elevada qualidade são escassas. As probabilidades desse boletim ser totalmente livre e independente de instituições culturais, sejam elas públicas ou privadas, são ainda mais escassas. As probabilidades desse boletim ser criado e gerido por um grupo de pessoas com muita vontade e de forma totalmente gratuita e desinteressada, reduzem-se praticamente a zero.
E no entanto o "FAZENDO" existe. E ainda bem.
Ao fim de 23 edições e 1 ano de existência o "FAZENDO" é a prova de que a vontade de FAZER algo com qualidade é mais forte que as vozes dos velhos do restelo.
Mas por muita qualidade e empenho das pessoas que gerem este projecto, o mesmo só é possível graças à incrivel quantidade de gente com actividades artísticas e culturais presentes nesta ilha, que desmentem aqueles que dizem que não há cultura no Faial.
A cultura no Faial está bem de saúde, e se não acredita, basta dar uma olhada à última página do "FAZENDO". Mas tudo o que é bom pode ser melhorado e estou convicto que a tendência será precisamente essa.
Para quem teve a paciência de ler este post até aqui, deverá ter reparado que este último parágrafo anula o segundo argumento para a improbabilidade da existência do "FAZENDO", mas mesmo existindo probabilidades ligeiramente maiores, as mesmas continuam a ser reduzidas.
Espero apenas que os "FAZEDORES" continuem a FAZER um bom trabalho e que continuem a existir razões para a existência do "FAZENDO".
Nota: A imagem deste post foi sacada do blog do "FAZENDO" e fez a capa da edição 16. Ao Pedro e ao Jácome os meus agradecimentos.