terça-feira, 16 de março de 2010

Igreja do Carmo – que futuro?

A Igreja do Carmo da cidade de Horta, para além de ser um edifício bonito, luminoso, espaçoso e com boa acústica, encontra-se numa localização excelente, com uma vista deslumbrante sobre a cidade, o canal e as ilhas vizinhas, particularmente o majestoso Pico. Foi, inclusivamente, indicada n'“O mais notável de cada ilha”, para a Ilha do Faial (juntamente com a Igreja de São Francisco e o Colégio dos Jesuítas), por Francisco E. O. Martins na sua obra de 1980 Subsídios para o Inventário Artístico dos Açores. Apesar de todas estas qualidades, o edifício encontra-se há décadas fechado à comunidade. Por enquanto, a Igreja mantém-se dignamente de pé, contra a inclemência do clima açoriano, após algumas obras de consolidação da estrutura na década passada, contando agora apenas com a ajuda de um pequeno número de pessoas que a têm limpo e reparado na medida do possível e no âmbito do mais premente para a sua sobrevivência.
Será a sua falta (mais ou menos) sentida, por alguns, por muitos? Talvez a sua longa “hibernação” tenha facilitado o acostumar-se à sua ausência, particularmente para quem sempre a conheceu fechada. Porém, talvez essa ausência seja menos fácil de aceitar se ponderarmos o potencial deste edifício e o que podia oferecer à cidade e à ilha. Aqui, para além da Igreja em si, estou a pensar no conjunto edificado – igreja + convento –, criado como uma unidade cuja volumetria ainda existe e, logo, pode ser restabelecida.
Existe a ideia (a utopia?) de devolver este edifício à vida. No entanto, como é por demais evidente, não há obra de recuperação – por mais ambiciosa, bem concebida e generosamente orçamentada – que garanta a sobrevivência a longo prazo seja de que edifício for, sem uma reutilização lhe dê razão de ser. Não pretendo defender uma ideologia materialista, é de património cultural que falo, mas dificilmente uma comunidade consegue suportar os custos de manutenção de todo o património existente, como se vê pelo abandono deste imóvel – deste e de outros, infelizmente exemplos não faltam. Só uma ligação à comunidade justificará a existência do edifício e, logo, é a única garantia de manutenção do mesmo.
Então, há que pensar numa reutilização para a Igreja do Carmo, que lhe devolva a vida e o futuro. Logo, a pergunta é: que equipamento urbano falece à cidade da Horta? O que poderá ser instalado na Igreja do Carmo, que sirva a comunidade e permita a sobrevivência do edifício, simultaneamente respeitando a sua dignidade arquitectónica, urbanística e histórica?
Proponho duas ideias totalmente diferentes, esperando que sejam inspiradoras, quer em si mesmas, quer por sugerirem outras:
1. Instalação, na Igreja do Carmo, do Museu de Arte Sacra, inaugurado oficialmente em 1965 e que existe sem existir, com a colecção dispersa, parte dela exposta no Museu da Cidade. Seria uma reutilização lógica, que preenche todos os requisitos acima colocados: o edifício é suficientemente espaçoso para albergar o museu; a função adequa-se totalmente ao contexto religioso do imóvel; e é um uso não só público mas que contribui para a vida cultural da cidade. Podemos ainda imaginar a extensão das funções de museu, na sua natureza didáctica e de divulgação cultural, a uma relação com a Escola Profissional da Horta (ali tão perto), por exemplo, instalando no convento oficinas para leccionar disciplinas inseridas em cursos de formação, ligadas ao património sacro (mas não só), como o trabalho e a reparação de ferro forjado, cerâmica, madeira, vitral, cantaria, modelação, estofamento, policromia, douramento e trabalhos com folha de ouro, etc., etc...
2. Instalação, na Igreja do Carmo, de uma Pousada da Juventude, equipamento que não existe na cidade da Horta. Veja-se a Pousada da Juventude de São Roque do Pico, reutilização do Convento de São Pedro de Alcântara que veio devolver à vida um edifício que, mesmo no estado de abandono em que estava, tinha uma enorme força de atracção, pela dignidade arquitectónica e pela localização. Tal como em São Roque do Pico, o Convento do Carmo tem todas as possibilidades de ser transformado em Pousada da Juventude, ficando a Igreja como património cultural visitável, já não um templo fechado, mas inserido num conjunto habitado que contribuiria para a diversidade da vida da cidade.
A pergunta permanece: que futuro para a Igreja do Carmo na Horta?

7 comentários:

tomas disse...

eu escolho a hipotese 1
acho uma ideia perfeita
principalmente na relação que pode ter com a escola profissional

acho que a pousada da juventude tem de ser mais para sul
que tal na fábrica do atum?

RD disse...

AMO as 2 ideias. Contudo a 1ª faz mais sentido. Faz todo o sentido. Completo sentido.
Ajudo no que for preciso para a vossa ideia. Deixo-vos a minha disponibilidade.

Aproveito, aliás - vim nesse sentido, agradecer de todo o coração ao Miguel Valente e á Aurora (que não sei se encontro por aqui, mas o Tomás há-de fazer o favor de lhe passar a mensagem) por nos terem ajudado a LIMPAR o FAIAL!
Fizeram toda a diferença.
Obrigado!

miguel valente disse...

Tendo vindo a acompanhar o trabalho da Ágata relativamente ao património da igreja do Carmo, por razões óbvias, estou bastante agarrado à ideia do Museu de Arte Sacra. Apesar disso, e quanto mais penso no assunto, mais a ideia de conversão do convento em Pousada da Juventude me atrai. O facto de as referidas instalações terem servido de alojamento para o exército, e como tal presumo que a sua adaptação para alojamento jovem deva ser bastante simples e de custos reduzidos. Naturalmente não sei como é que estão as instalações mas geralmente os militares são bastante práticos. Tal solução não impede que a igreja seja recuperada e que sirva igualmente para a realização de eventos culturais. Felizmente a cidade da Horta, outrora tão carenciada de equipamentos culturais, começa a estar bastante bem servida dos mesmos, existindo apenas uma grande carência de espaços para albergar diversas associações de carácter recreativo e cultural.

Ma-nao disse...

Tomás - Também prefiro a primeira opção, mas parece-me importante pensar noutras possibilidades caso essa se venha a demonstrar inexequível.
Quanto à fábrica, é propriedade privada; o mesmo é dizer: é uma propriedade de dimensões consideráveis junto a Porto Pim, numa localização que antes só não era mais apetecível para habitação porque... ficava perto da fábrica de peixe!
RD - Obrigada pelo apoio. E obrigada por terem andado a limpar o Faial; espero na próxima ter outra disponibilidade.
Miguel - Essa ideia é uma terceira proposta de utilização? Sedear algumas associações culturais naquele espaço responderia, de facto, a uma necessidade existente. Penso que nessa opção é importante assegurar a dinamização do local.

RD disse...

http://compararsantamaria.blogspot.com/
aqui encontram um projecto que parece que foi aprovado em sta maria, uma pousada da juventude.
pelo que sei está previsto sediar algumas empresas/associações no antigo ciclo.
a fábrica no pasteleiro, segundo um dos presponsáveis pela cofaco, ainda não tem destino á vista.

RD disse...

responsáveis, lapso.

Pedro Dores disse...

esta igreja ja entrou em obras, que grande monumento, espero que façam um bom trabalho no restauro